No Dia do Psiquiatra, mais do que celebrar uma data, gosto de refletir sobre o significado da profissão que escolhi exercer.
A Psiquiatria me colocou diante de um dos desafios mais complexos da Medicina: compreender a mente humana. Não apenas identificar sintomas ou estabelecer diagnósticos, mas tentar entender como a história de uma pessoa, suas relações, seu corpo, seu ambiente e suas experiências se combinam na forma como ela pensa, sente e vive.
Ao longo da minha trajetória, depois de mais de 10 mil atendimentos, aprendi que nenhuma pessoa pode ser resumida a um diagnóstico.
Duas pessoas podem apresentar sintomas semelhantes e, ainda assim, viver sofrimentos completamente diferentes. Podem ter necessidades distintas, responder de maneiras diferentes ao tratamento e precisar de caminhos igualmente particulares para recuperar sua autonomia e sua qualidade de vida.
É justamente por isso que uma consulta psiquiátrica não deve se limitar a uma lista de sintomas ou à prescrição de um medicamento. Antes de qualquer conduta, é necessário escutar. Investigar o que está acontecendo, quando começou, como interfere na rotina e quais fatores podem estar contribuindo para aquele sofrimento.
Também é preciso compreender o que existe além da doença: os vínculos, os valores, as expectativas, os projetos e os recursos que cada pessoa possui para enfrentar o momento que está vivendo.
Entre a ciência e a singularidade humana
A Psiquiatria exige rigor científico. Diagnósticos precisam ser construídos com cuidado, tratamentos devem ser indicados de forma responsável e cada decisão precisa considerar evidências, riscos, benefícios e particularidades clínicas.
Mas o conhecimento técnico, sozinho, não é suficiente.
É possível conhecer profundamente os critérios diagnósticos e os mecanismos de ação dos medicamentos e, ainda assim, não compreender a pessoa que está diante de nós. A prática psiquiátrica acontece justamente no encontro entre a ciência e a singularidade humana.
Essa combinação é uma das partes que mais valorizo na minha profissão. De um lado, o estudo contínuo, a atualização e a responsabilidade de oferecer tratamentos baseados nas melhores evidências disponíveis. Do outro, a escuta atenta e a disposição para compreender uma experiência que nunca será idêntica à de outra pessoa.
Nem sempre a resposta está evidente na primeira consulta. Sintomas podem se sobrepor, diagnósticos podem precisar de tempo para se esclarecer e um tratamento que funciona bem para alguém pode não produzir o mesmo resultado em outra pessoa.
Por isso, fazer Psiquiatria também significa acompanhar. Observar a evolução, revisar hipóteses, reconhecer quando uma estratégia não funcionou e ajustar o caminho sempre que necessário.
Cuidar sem reduzir a pessoa ao transtorno
Muitas pessoas chegam à consulta depois de conviver por meses ou anos com um sofrimento que não conseguiram nomear. Algumas sentem culpa pelo que estão vivendo. Outras foram julgadas como fracas, difíceis, desorganizadas ou incapazes antes que alguém considerasse a possibilidade de um transtorno mental.
Receber um diagnóstico pode ajudar a organizar essa experiência, orientar o tratamento e diminuir a sensação de estar enfrentando algo incompreensível. Entretanto, um diagnóstico não deve se transformar em uma nova forma de aprisionamento.
A pessoa continua sendo maior do que o transtorno que apresenta.
Meu trabalho não é definir alguém por uma doença, mas compreender o que está comprometendo sua vida e ajudá-la a recuperar possibilidades: voltar a dormir, trabalhar, estabelecer vínculos, tomar decisões, sentir prazer, organizar a rotina e construir projetos novamente.
Em alguns casos, esse processo envolve medicamentos. Em outros, psicoterapia, mudanças de hábitos, reorganização do sono, redução do uso de substâncias ou intervenções no contexto familiar e social. Frequentemente, o cuidado exige uma combinação dessas estratégias.
Prescrever pode fazer parte do tratamento. Compreender quando, por que e para quem prescrever é o que exige verdadeira responsabilidade.
O que a Psiquiatria representa para mim
Ser psiquiatra é conviver diariamente com histórias de sofrimento, mas também acompanhar processos de reconstrução.
É ver alguém recuperar a autonomia depois de um período de adoecimento. É perceber mudanças que, para quem observa de fora, talvez pareçam pequenas, mas que representam uma transformação profunda para quem voltou a viver com mais estabilidade, liberdade e perspectiva.
Esses momentos também trazem uma responsabilidade importante: a consciência de que cada decisão clínica pode interferir de maneira concreta na vida de uma pessoa.
Por isso, procuro exercer a Psiquiatria com escuta, clareza e rigor científico. Sem promessas fáceis, sem julgamentos e sem reduzir questões complexas a respostas simples.
Ainda há muito que a ciência precisa compreender sobre a mente humana. Talvez seja justamente essa complexidade que torne a Psiquiatria tão desafiadora e, ao mesmo tempo, tão significativa para mim.
Neste Dia do Psiquiatra, celebro não apenas a profissão, mas o compromisso que ela representa: continuar estudando, escutando e buscando compreender cada pessoa para oferecer um cuidado verdadeiramente individualizado.
