É comum alguém chegar à consulta dizendo que a atenção piorou muito nos últimos anos. A pessoa relata dificuldade para terminar tarefas, alterna entre várias abas, se distrai com notificações e percebe que perdeu a capacidade de ficar muito tempo em uma atividade só.

A primeira conclusão costuma ser: “Será que eu tenho TDAH?”

Essa é uma pergunta válida, mas precisa ser investigada com cuidado. Redes sociais não causam TDAH, que é um transtorno do neurodesenvolvimento. Ainda assim, o padrão de uso do celular pode piorar de forma relevante a atenção sustentada, aumentar a distraibilidade e até amplificar sintomas que se parecem com TDAH.

Uma meta-análise publicada em 2025 reuniu 15 estudos, com mais de 35 mil participantes, e encontrou uma associação moderada entre uso problemático de redes sociais e sintomas de TDAH, especialmente desatenção.

Isso não quer dizer que uma pessoa que usa muito Instagram ou TikTok necessariamente tenha TDAH. Os estudos avaliam sintomas, não apenas diagnósticos formais. Mas mostram que, quanto mais compulsivo e difícil de controlar é o uso, maiores tendem a ser as queixas de atenção e impulsividade.

Outro ponto importante é que o problema não parece ser apenas “quantas horas por dia” alguém passa nas redes. O uso problemático, aquele em que a pessoa sente necessidade constante de checar o celular, perde o controle do tempo, interrompe tarefas repetidamente ou usa a rede para fugir de desconfortos, parece ter uma relação mais consistente com sintomas atencionais do que o número de horas, isoladamente.

E o que acontece ao longo do tempo?

Um estudo publicado no JAMA acompanhou adolescentes por cerca de dois anos. Aqueles com maior frequência de uso de múltiplas atividades digitais apresentaram uma chance discretamente maior de desenvolver sintomas posteriores de desatenção e hiperatividade. O efeito foi pequeno e não permite afirmar causalidade, mas chama atenção porque acompanhou pessoas que inicialmente não apresentavam sintomas significativos.

Mais recentemente, dados do ABCD Study, que acompanha milhares de adolescentes ao longo dos anos, sugeriram algo semelhante: aumentos no uso problemático de redes sociais em relação ao padrão habitual da própria pessoa foram seguidos por pequenos aumentos de sintomas de TDAH no ano seguinte.

O tamanho desses efeitos é pequeno. Isso importa porque evita conclusões exageradas. Não é correto dizer que TikTok “causa TDAH” ou que as redes sociais “destroem a atenção”. Mas também já não faz sentido tratar o ambiente digital como algo totalmente irrelevante para quem está com queixas cognitivas.

Reduzir a conectividade pode ajudar?

Um ensaio clínico randomizado publicado em 2025 trouxe um dado interessante. Participantes que bloquearam o acesso à internet móvel no smartphone por duas semanas apresentaram melhora pequena, mas significativa, em uma medida objetiva de atenção sustentada.

O estudo não avaliou apenas redes sociais, e sim o acesso à internet pelo celular de forma mais ampla. Mesmo assim, reforça uma ideia clínica bastante plausível: interrupções frequentes, notificações, troca constante de estímulos e a disponibilidade permanente de conteúdo podem dificultar a permanência em tarefas que exigem foco contínuo.

Então o celular pode estar “imitando” TDAH?

Em algumas pessoas, pode amplificar sintomas que já existem. Em outras, pode contribuir para queixas atencionais importantes sem que exista TDAH.

Por isso, em uma avaliação de TDAH em adultos, não basta olhar apenas para a dificuldade de concentração atual. É preciso entender se os sintomas estavam presentes desde a infância, em diferentes contextos, e se houve prejuízos persistentes ao longo da vida.

Também vale investigar sono, ansiedade, depressão, uso de substâncias, rotina, sobrecarga e o padrão de uso de celular e redes sociais.

Uma pessoa pode ter TDAH e perceber os sintomas muito mais intensos quando está dormindo mal, ansiosa e alternando entre notificações o dia inteiro. Outra pode ter dificuldades de atenção relevantes, mas sem a história neurodesenvolvimental necessária para o diagnóstico de TDAH.

O que vale observar na prática?

Mais do que contar horas de tela, vale perguntar:

  • Você consegue ficar longe do celular enquanto trabalha ou estuda?
  • As notificações interrompem tarefas com frequência?
  • Você abre redes sociais automaticamente, mesmo sem querer?
  • Depois de usar o celular, sente mais dificuldade para retomar uma tarefa?
  • O uso está ocupando espaço de sono, atividade física, convívio ou trabalho?

Se essas perguntas fazem sentido para você, reduzir interrupções pode ser um bom primeiro passo. Silenciar notificações não essenciais, deixar o celular fora do campo de visão durante tarefas importantes e criar períodos sem redes sociais costuma ser mais útil do que tentar resolver tudo apenas com força de vontade.

O celular não explica todas as dificuldades de atenção. Mas, em algumas pessoas, ele pode estar piorando bastante um problema que já existe.