Controlar os sintomas é importante. Mas de que adianta melhorar de um problema e passar a conviver com outros causados pelo próprio tratamento?

Imagine alguém que procura atendimento por ansiedade. Depois de algumas semanas tomando a medicação, as crises diminuem, a preocupação já não ocupa tanto espaço e o sono melhora.

Até aqui, ótimo.

Mas essa mesma pessoa começa a perceber que passa boa parte do dia sonolenta, tem dificuldade para se concentrar no trabalho e já não sente a mesma disposição para fazer as coisas de que gosta.

Será que podemos considerar esse tratamento um sucesso?

Essa é uma questão que considero muito importante na minha prática como psiquiatra.

Melhorar os sintomas não é o único objetivo

Quando prescrevo um medicamento, não estou pensando apenas em reduzir sintomas de ansiedade, depressão ou qualquer outro transtorno psiquiátrico.

Também penso em como aquela pessoa vai se sentir durante o tratamento.

Ela vai conseguir trabalhar normalmente? Estudar? Manter seus relacionamentos? Ter disposição para sair, praticar atividades físicas e aproveitar os momentos de lazer?

Porque existe uma diferença importante entre estar com os sintomas controlados e estar realmente bem.

Um medicamento pode apresentar excelente eficácia para determinado transtorno e, ainda assim, não ser a melhor escolha para uma pessoa específica.

E é justamente aí que entra algo que considero fundamental: eficácia e tolerabilidade precisam caminhar juntas.

O tratamento não deve ser pior do que aquilo que estamos tentando tratar

É verdade que medicamentos psiquiátricos podem provocar efeitos adversos. Alguns são transitórios, outros dependem da dose e alguns podem persistir durante o tratamento.

Isso não significa que qualquer desconforto seja motivo para abandonar uma medicação. Muitas vezes, os benefícios são importantes e determinados efeitos diminuem com o tempo.

Mas também não significa que o paciente precise aceitar qualquer efeito adverso simplesmente porque o medicamento está funcionando.

Se alguém melhora da ansiedade, mas permanece excessivamente sedado, precisamos conversar sobre isso.

Se os sintomas depressivos diminuem, mas a pessoa relata apatia, embotamento emocional ou dificuldade para sentir prazer, isso também merece atenção.

Inclusive porque nem sempre é simples distinguir um efeito do medicamento de um sintoma residual do próprio transtorno.

Na minha prática, procuro justamente esse equilíbrio: alcançar uma boa resposta terapêutica com o menor impacto possível dos efeitos adversos na vida do paciente.

Às vezes, isso envolve ajustar a dose. Em outras situações, modificar o horário de administração, reconsiderar a escolha do medicamento ou investigar outras causas para aquela queixa.

O importante é não perder de vista a pessoa que está por trás dos sintomas.

O paciente precisa participar das decisões

Existe outra coisa que considero indispensável no tratamento psiquiátrico: ouvir o paciente.

E não estou falando apenas de perguntar se a ansiedade diminuiu ou se o humor melhorou.

Quero saber como ele está vivendo.

Como está sua energia? Sua concentração? Seu sono? Sua vida sexual? Sua capacidade de sentir emoções? Sua disposição para trabalhar e fazer aquilo de que gosta?

Essas respostas têm um peso enorme nas minhas decisões.

Afinal, sou eu quem estuda as possibilidades terapêuticas, avalia os riscos e benefícios e orienta as escolhas com base no conhecimento médico. Mas é o paciente quem convive diariamente com os efeitos daquele tratamento.

Por isso, acredito que uma boa prescrição não termina quando entregamos uma receita.

Ela continua nas consultas seguintes, quando avaliamos juntos o que melhorou, o que ainda incomoda e o que pode ser ajustado.

O tratamento não deve ser uma decisão unilateral. Ele precisa ser construído em conjunto.

E quando não conseguimos evitar todos os efeitos adversos?

Nem sempre é possível encontrar um medicamento que ofereça o benefício desejado sem provocar qualquer efeito indesejado.

Em determinadas situações, especialmente em quadros mais graves, alguns efeitos podem ser aceitáveis diante dos benefícios clínicos. A sedação, por exemplo, pode até ser útil em circunstâncias específicas.

O que importa é que essas decisões sejam conscientes, individualizadas e discutidas com o paciente.

Não existe uma fórmula que funcione igualmente para todos.

Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter respostas muito diferentes ao mesmo medicamento. E duas pessoas que apresentam o mesmo efeito adverso podem atribuir a ele importâncias completamente distintas.

É por isso que conhecer a rotina, as prioridades e as expectativas de cada paciente faz tanta diferença.

Afinal, o que considero um bom resultado no tratamento?

Para mim, um bom resultado não é apenas ouvir que as crises desapareceram ou que os sintomas diminuíram.

É perceber que aquela pessoa está conseguindo retomar sua vida.

Que voltou a trabalhar com disposição, consegue se concentrar, mantém seus relacionamentos e encontra espaço para fazer aquilo de que gosta.

Que está melhor não apenas nas escalas de avaliação ou nos critérios diagnósticos, mas também na própria percepção de qualidade de vida.

Nem sempre alcançamos tudo isso de imediato. O tratamento psiquiátrico pode exigir tempo, ajustes e, algumas vezes, escolhas difíceis.

Mas esse continua sendo o objetivo.

Porque não basta encontrar um medicamento que funcione para determinado transtorno. Precisamos encontrar um tratamento que faça sentido para a vida de quem está sendo tratado.

Dr. Arthur Freire — Médico Psiquiatra