Se o escitalopram, a lisdexanfetamina, o lítio, a mirtazapina e o clonazepam fossem pessoas, como seriam?

Alguns seriam tranquilos, outros estariam sempre cheios de iniciativa. Teríamos aquele amigo que adora dormir e até alguém que nunca dispensa uma sobremesa.

É claro que medicamentos não têm personalidade. Mas imaginar como eles se comportariam se fossem pessoas é uma maneira divertida de conhecer algumas de suas características.

Vamos?

1. Escitalopram: a pessoa plena

Sabe aquela pessoa que parece ter feito as pazes com a vida? Que não transforma qualquer problema em uma tragédia e consegue manter a tranquilidade mesmo quando tudo está uma bagunça? Essa seria a personalidade do escitalopram.

Plena, paciente, desapegada, diplomática, um pouco indiferente e tranquila.

Na vida real, o escitalopram é um antidepressivo da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). É utilizado no tratamento da depressão e de diferentes transtornos de ansiedade.

Seu efeito terapêutico costuma surgir gradualmente, ao longo de semanas. Por isso, nossa personagem também é paciente: ela sabe que nem tudo acontece imediatamente.

E a indiferença? Algumas pessoas em tratamento com antidepressivos relatam uma redução da intensidade das emoções, fenômeno conhecido como embotamento emocional. Isso não acontece com todos e, quando ocorre, merece avaliação.

Afinal, tratar a depressão não significa deixar de sentir emoções.

Entenda o embotamento emocional durante o uso de antidepressivos

2. Lisdexanfetamina: a pessoa cheia de iniciativa

Imagine alguém que organiza a agenda, começa um projeto e já está pensando no próximo compromisso. Essa seria a nossa lisdexanfetamina.

Animada, determinada, focada, produtiva, objetiva e cheia de iniciativa.

A lisdexanfetamina é um estimulante do sistema nervoso central utilizado, entre outras indicações, no tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Depois de metabolizada, libera dextroanfetamina, que aumenta a disponibilidade funcional de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina.

Em pessoas com TDAH, pode melhorar a atenção, o controle dos impulsos e a capacidade de organizar e concluir tarefas. Mas nossa personagem também tem suas peculiaridades.

Ela pode estar tão envolvida em uma atividade que se esquece do horário do almoço. Isso faz referência à redução do apetite, um efeito adverso conhecido do medicamento.

Vale lembrar que o objetivo do tratamento não é transformar ninguém em uma máquina de produtividade, mas reduzir sintomas e melhorar o funcionamento cotidiano.

Leia também: lisdexanfetamina no tratamento do TDAH em adultos

3. Lítio: o amigo que não gosta de altos e baixos

Todo grupo tem aquela pessoa que dificilmente perde a cabeça.

Enquanto alguns estão desesperados, ela continua pensando com calma. Não costuma tomar decisões impulsivas e prefere estabilidade a grandes emoções. Esse seria o lítio.

Estável, confiável, resiliente, calmo, ponderado e previsível.

O lítio é um dos tratamentos mais bem estabelecidos para o transtorno bipolar, especialmente na prevenção de episódios de mania e de recorrências do transtorno. Também apresenta evidências importantes de redução do risco de suicídio em determinadas populações clínicas.

Sua principal característica é a capacidade de ajudar a manter a estabilidade do humor ao longo do tempo. Mas existe um detalhe: esse amigo exige acompanhamento.

O tratamento com lítio requer monitoramento da concentração sanguínea do medicamento, além de avaliações periódicas da função renal e tireoidiana. Ou seja, é uma amizade que funciona melhor quando todo mundo respeita os combinados.

4. Mirtazapina: a pessoa que ama comer e dormir

Agora imagine alguém que adora uma boa noite de sono, não dispensa uma sobremesa e prefere um programa confortável a uma noite agitada. Apresento a mirtazapina.

Comilona, dorminhoca, bem-humorada, tranquila, carinhosa e sociável.

A mirtazapina é um antidepressivo com mecanismo de ação diferente dos ISRS. Atua, entre outros mecanismos, por antagonismo de receptores alfa-2 adrenérgicos e de determinados receptores serotoninérgicos. Também apresenta importante ação anti-histamínica, especialmente sobre receptores H1, o que contribui para seus efeitos sedativos e para o aumento do apetite.

Por isso, sonolência e ganho de peso estão entre seus efeitos adversos conhecidos. Entretanto, seria um erro pensar que a mirtazapina serve apenas para dormir ou aumentar o apetite. Ela é um antidepressivo eficaz e pode ser particularmente útil em determinados contextos clínicos, dependendo das características do paciente.

Nossa personagem gosta de conforto, comida e descanso. Mas sua principal função terapêutica continua sendo tratar a depressão.

Saiba mais sobre como funciona a mirtazapina

5. Clonazepam: o amigo que já está dormindo

Sabe aquela pessoa que consegue dormir no sofá enquanto todo mundo está conversando? Que sempre diz que os problemas podem esperar até amanhã?

Esse seria o clonazepam.

Dorminhoco, tranquilão, desligado, despreocupado, esquecido e apegado.

O clonazepam pertence à classe dos benzodiazepínicos. Atua potencializando a ação do neurotransmissor GABA, importante para a inibição da atividade neuronal. Possui propriedades ansiolíticas, anticonvulsivantes, sedativas e relaxantes musculares.

Seus efeitos podem ser percebidos relativamente rápido, o que ajuda a explicar sua utilização em situações clínicas específicas. Entretanto, essa aparente tranquilidade exige alguns cuidados.

O clonazepam pode provocar sonolência, prejuízo da atenção, alterações da memória e redução dos reflexos. Além disso, seu uso continuado pode levar à dependência física.

É daí que vem a característica de ser apegado: uma brincadeira com a dificuldade que algumas pessoas apresentam para interromper o medicamento depois de utilizá-lo por períodos prolongados.

Por isso, o tratamento deve ter indicação adequada, acompanhamento médico e reavaliação periódica. A suspensão abrupta após uso regular pode provocar sintomas de abstinência.

Afinal, qual dessas personalidades é a melhor?

Nenhuma.

E essa talvez seja a parte mais importante da nossa brincadeira. Na psiquiatria, não existe um medicamento universalmente melhor do que os outros.

Cada psicotrópico apresenta mecanismos de ação, indicações, benefícios, contraindicações e possíveis efeitos adversos diferentes. Um medicamento que funciona muito bem para determinada pessoa pode não ser a melhor escolha para outra, mesmo quando ambas apresentam o mesmo diagnóstico.

A escolha depende de uma avaliação individualizada, considerando sintomas, histórico clínico, tratamentos anteriores, comorbidades, interações medicamentosas e preferências do paciente.

Medicamentos não têm personalidade. Pessoas SIM e o tratamento precisa respeitar isso.

As personalidades apresentadas aqui são caricaturas inspiradas em propriedades farmacológicas e possíveis efeitos dos medicamentos. Não representam necessariamente a experiência de quem os utiliza e não devem ser interpretadas como orientação para iniciar, modificar ou interromper tratamentos.

Dr. Arthur Freire — Médico Psiquiatra

CRM-SP 204245 | RQE 101055

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.